Trânsito

O louco que nos poetas habita Jamais neles encontra sua morada. Erra ao encalço da palavra inaudita E faz de cada poema uma estada. Transmuta a brutalidade constrita, Que nas pedras encerra sua toada, E faz do verbo voz, posto que imita, O que à vida restaria calada. O louco no poeta é puro trânsito, Fluxo convulso de beleza e dor Cuja tragédia forja a alegria alheia Não lhe cabe nesta vida sítio ou âmbito, Resta-lhe o mesmo eterno dissabor Pois sua sina é de pó, de vento e areia.

Publicado originalmente na revista À Margem

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Revista À Margem [Edição 1]: Outono de 2026