O Alfarrábio

Caminhava pelo bairro de San Telmo, na capital argentina, quando o acaso me levou até a rua México. Lá, avistei de relance, entre muitas lojinhas, uma placa que dizia Alfarrabio, do outro lado da rua. Atraído pela sonoridade da palavra – que há muito não lia –, decidi atravessar e entrar no estabelecimento, pensando que talvez fosse um bom lugar para passar o tempo.

Ao entrar, a porta acionou um sinete, mas ninguém apareceu. Era uma loja estreita e comprida, lembrava um antiquário. Havia uma grande mesa logo na entrada com vários livros empilhados e, mais adiante, duas fileiras de estantes que preenchiam o corredor de lado a lado, terminando num fundo nebuloso, onde era possível divisar uma luzinha fraca.

Sobre a mesa, avistei um exemplar empoeirado de El Libro de Arena de Borges. Ao folheá-lo, descobri que se tratava de uma edição autografada com uma dedicatória. Pareceu-me um golpe de sorte; decidi levá-lo. Percorri o corredor escuro, observando as velhas estantes repletas de livros. Ao final, havia um balcão com um pequeno abajur e um senhor de aspecto alheado. Ao observá-lo melhor, percebi que era cego. Senti-me compelido a dizer algo. “Buenas tardes”, cumprimentei. O senhor meneou a cabeça em minha direção e sorriu.

Uma chuva repentina fustigou o teto do estabelecimento. Satisfeito com meu pequeno achado, resolvi pagar e conversar um pouco com aquele senhor.

El Libro de Arena – disse, tentando ajudar o senhor a identificar o livro.

– Sim, eu sei. A dedicatória é para mim.

Fiquei surpreso e observei atentamente aquele homem, que olhava para o vazio. Pensei que o fato acrescentaria uma camada extra de valor à minha aquisição. Antes que eu pudesse perguntar como conhecera Borges, ele se adiantou:

– Gosta de Borges?

– Muito. Foi um dos maiores do século XX. Uma grande injustiça não ter sido laureado.

– Ele não confessava abertamente, mas se ressentia.

Houve um breve silêncio. Então, me disse:

– Tenho algo que talvez lhe interesse.

Levantou-se e entrou por uma portinhola que até então eu não havia notado. “O local não é tão pequeno, afinal”, pensei. Talvez houvesse outra livraria secreta por trás. Minutos depois, ele voltou com algumas pastas. Abriu uma delas e retirou alguns papéis. Enquanto os manuseava, perguntei do que se tratava.

– São cartas inéditas de Borges. Ele as escreveu para si mesmo quando já estava cego.

Entregou-me os papéis e vi que eram relativamente antigos. Borges ficara cego no fim da vida; supus que o fato havia se dado mais ou menos quando eu nascia. As cartas deveriam ter, portanto, em torno de cinquenta anos, e o que tinha em mãos parecia condizente com essa estimativa. Mas considerei fantástico demais estar envolvido em uma história como aquela e desconfiei: “Cartas inéditas que Borges escreveu para si mesmo?”, repeti, incrédulo. Aproveitei a cegueira do ancião e busquei no celular algum manuscrito de Borges. Surpreendi-me ao descobrir que a caligrafia era compatível. Perguntei-lhe o valor; arrependido, regateei em seguida, apenas para dissuadi-lo da oferta. Já estava satisfeito com o exemplar autografado.

– Tenho outro item que talvez o senhor queira dar uma olhada. Também ligado a Borges.

Era um comerciante tenaz. Remexeu as pastas, seus olhos cinzentos fixos em um horizonte inexistente naquele corredor estreito. De repente, sorriu.

– Aqui está.

Entregou-me uns manuscritos com iluminuras. Pareciam muito antigos. Manuseei-os com cuidado. As bordas externas estavam desgastadas, mas a borda interna tinha um corte liso, como se feito por um estilete, sugerindo que foram subtraídos de algum livro para serem comercializados no mercado negro.

– O que são? – inquiri, tomado pela curiosidade.

– Trata-se da versão em negativo da fábula da noite 351.

Não compreendi de imediato. O velho prosseguiu:

– O senhor já deve ter ouvido falar sobre a existência de uma versão alternativa de As Mil e Uma Noites, supostamente banida pelos muçulmanos...

Recordava-me vagamente de ter lido sobre essa hipótese alguma vez.

– ... Nesta versão, Scheherazade seria a sultana e Shahryar seu escravo, igualmente fadado a inventar uma história a cada noite, que o pouparia da execução ao amanhecer.

– Sim – disse, refrescando minha memória – as fábulas seriam as mesmas, mas teriam desfechos diferentes ou um sentido moral oposto.

– Exato. Houve quem defendesse que esta versão, na realidade, seria a original, e não aquela que se consagrou entre nós, na tradução de Antoine Galland do século XVIII.

Tal hipótese – por si só, fabulosa – jamais fora sustentada por qualquer evidência concreta. Continuou:

– O que o senhor tem em mãos é um antigo manuscrito do Monastério de San Jerónimo de Córdova. Provavelmente, é o trabalho de algum copista do próprio monastério, feito logo após a Reconquista – disse o velho. – A única evidência conhecida daquele texto proscrito.

Olhei de novo o documento.

– Não leio em latim – disse, para ganhar tempo, enquanto processava aquela enxurrada de informações.

– Na última página encontra-se a tradução do texto para o espanhol contemporâneo.

Li as primeiras linhas e logo notei remeterem à História dos Dois que Sonharam – cujo enredo, sabemos, fascinava a Borges. A fábula, bastante conhecida, é simples e cativante; e sua moral, cristalina: conta-se que, no Cairo, havia um homem outrora rico que perdeu suas riquezas distribuindo-as entre seus filhos, exceto a casa paterna, sendo forçado a trabalhar para viver. Um dia, enquanto dormia sob uma figueira em seu jardim, sonhou com um homem que lhe dizia que sua fortuna estava em Isfarrã, na Pérsia. Ao acordar, ele partiu em longa viagem, enfrentando perigos diversos até chegar à cidade. Dormindo no pátio de uma mesquita, acabou sendo confundido com um ladrão, foi preso e açoitado. Interrogado pelo capitão dos guardas, explicou seu sonho. O capitão riu, relatando um sonho semelhante sobre uma casa no Cairo com um tesouro enterrado sob uma fonte. Liberado, com algumas moedas dadas pelo capitão, o homem retornou ao Cairo e encontrou o tesouro em sua própria casa, como havia sido prometido em sonho. Assim, Deus o premiou por sua fé.

– Sei de alguém que se tornou imortal com essa história sem lhe dar o devido crédito – pensei em voz alta.

O velho não entendeu. Continuei com a leitura da versão alternativa. Dizia o texto, ipsis litteris:

E Shahryar prosseguiu: Oh! Auspiciosa Senhora!

Dizem, porém, que somente Alá é poderoso e nunca dorme, e que, em tempos antigos, na cidade do Cairo, viveu um próspero mercador viúvo com três filhos. Quando os mais velhos pediram o seu quinhão, o pai, impiedoso, enviou-os às guerras, onde padeceram. Considerava os filhos ambiciosos e parecidos demais com a mãe. Poupou o mais novo, que, além de parecer com o pai, era dócil.

O jovem cresceu e se enamorou da filha do maior mercador do Cairo, e não só foi correspondido, como o próprio pai da menina também se afeiçoou pelo rapaz. Mas o impiedoso homem se apaixonou loucamente pela prometida do filho e usou o mesmo artifício aplicado aos demais: enviou o jovem à guerra, onde encontrou um destino rápido e trágico. O ímpio tomou a menina à força, despertando a ira do rico mercador, que o sequestrou e o levou para longe da cidade. Num deserto distante, foi espancado até à beira da morte e teve todos os seus bens subtraídos.

O homem foi resgatado por monges eremitas do deserto, que cuidaram dele. Quando recobrou a consciência, caiu de joelhos, implorando a Deus perdão por sua insensatez, chorando amargamente. Converteu-se à fé de Cristo e viveu entre os monges, com quem aprendeu o latim. Após alguns anos, deixou seus benfeitores e se estabeleceu em uma província cristã na Antioquia, onde aprendeu o grego. Arranjou trabalho em uma casa de mercadores, e seu domínio do árabe e do latim fez com que prosperasse no ofício. Seu faro para negócios o fez cair nas graças da viúva proprietária da casa. Casaram-se, viveram castamente e os negócios floresceram. Tornaram-se membros ativos da comunidade, praticando a caridade e auxiliando a igreja local.

O homem considerava-se agraciado. Não sem uma réstia de orgulho, pensava em como se tornara outro homem e sentia sincera alegria em seu coração. Em momentos de remorso, recordava seus filhos, especialmente o mais novo e a moça que violentou. Mas eram pecados confessados e arrependidos. Agora, gozava de riqueza e do reconhecimento moral da comunidade.

Então, chegaram notícias das vagas muçulmanas que assolavam a região. Um novo Emir impunha terror entre os cristãos. Quando suas hostes se aproximaram de Antioquia e o pânico já se espalhava, o homem foi enviado, com outros membros da comunidade, para negociar alguma paz. Ele encontrou o jovem Emir e se impressionou com o fausto da comitiva e a moral e o preparo de seus soldados. Compreendeu que não haveria como resistir. Mas o jovem Emir parecia ter gostado do ancião que falava o árabe e o enviou de volta a Antioquia com a promessa de paz, desde que a cidade louvasse Alá e lhe pagasse uma quantia em ouro.

Quando informou seus concidadãos das condições impostas, surpreendeu-se com a sua firme recusa e a disposição em se martirizarem, a fim de não se venderem aos infiéis como Judas. O homem apavorou-se, pressentiu o massacre e enviou ao Emir em segredo detalhes sobre os pontos fracos da cidade para que o assalto fosse rápido; e assim foi.

Após o triunfo, o homem se apresentou ao conquistador na esperança de reconhecimento e, quem sabe, de uma posição favorável. Saudou o Emir, invocando Alá, mas o guerreiro lhe respondeu: ‘Desde que me conheço, espero por este momento: sempre foste um covarde e um traidor. Entregaste os filhos à morte e violentaste minha mãe. Sabia que não tardaria também a trair os seus. Agora cairás pela espada de um filho teu.’

Ao ouvir essas palavras, o homem prostrou-se de joelhos, implorando perdão, e então veio-lhe à memória a vez em que também caíra de joelhos no deserto, pedindo a Deus redenção pelos seus crimes. Antes que a lâmina cruzasse seu pescoço, compreendeu com amargor que nunca deixara de ser quem sempre fora. Assim, Alá puniu o pai ímpio. E o seu próprio filho, instrumento da justiça divina, exaltou o nome do Deus, o Generoso, o Oculto!”.

A versão alternativa da fábula me pareceu mais realista e menos ingênua, e sua moral tão ou mais interessante que a outra: tornar-se outra pessoa não significa tornar-se uma pessoa melhor. O tema do Eterno Retorno. Não estava nada convencido, porém, da veracidade dos documentos (ainda que não me considerasse apto a opinar sobre a autenticidade do manuscrito medieval).

– Interessante. No entanto, essa versão carece do orientalismo típico das antigas fábulas árabes. A moral é moderna, quase nietzscheana. E, apesar das semelhanças entre as duas histórias, as simetrias não são exatas.

Antes que o velho pudesse contra-argumentar, apresentei minha cartada final, que havia guardado até ali:

– Além disso, a História dos Dois que Sonharam não corresponde à noite 351 de As Mil e Uma Noites. Sei de onde tirou essa referência: Borges a menciona em A História Universal da Infâmia, mas a fábula sequer integra o corpus tradicional das Noites. Trata-se de uma paródia inventada por ele, assim como essa versão do copista não passa de uma paródia da paródia e, portanto, duplamente falsa.

Silenciei. Meu coração palpitava – estava convencido de ter desferido o golpe definitivo, e minha acusação era grave. O velho permaneceu calado por alguns instantes. Então, disse calmamente:

– Não existe nada mais oriental do que o tema do eterno retorno. Nietzsche o extraiu do pessimismo de Schopenhauer, que, por sua vez, o tomou da filosofia oriental e suas doutrinas dos ciclos. Sobre a fábula da noite 351, permita-me: como você concluiu que se trata de uma paródia?

– Consultei meus volumes. Jamais encontrei essa fábula. Borges brincou com seus leitores, explorando o tema da ficção dentro da ficção, e aproveitou-se da natureza mutável da tradição oral e escrita das fábulas orientais para produzir sua pequena infâmia.

– A sua tradução de As Mil e Uma Noites é a de Galland. Ou a de Mardrus. Borges utilizou-se da tradução de Richard Francis Burton. Acredito que a desconheça.

Surpreso, fui obrigado a assentir. Prosseguiu:

– Na edição de Burton, a fábula dos dois que sonham corresponde à noite 351. As Noites não são um livro, mas uma tradição. Existe um corpo básico, mas algumas histórias foram incluídas, outras excluídas, ao gosto de quem as compilou.

Por fim, concluiu:

– Concordo que a simetria entre as duas fábulas não é perfeita. Mas isso corrobora outra hipótese ainda mais fascinante: a de que As Mil e Uma Noites eram muito maiores, não apenas com fábulas “em negativo”. Talvez a versão real tivesse mais de dez mil noites. Todas as histórias que não passaram pelo crivo dos califas foram rejeitadas. E o que chegou até nós é essa versão mais ou menos estável e reduzida que os europeus denominaram As Mil e Uma Noites.

– Mas dez mil e uma noites corresponderiam a quase trinta anos... Duvido que o sultão permanecesse tanto tempo interessado em Scheherazade – arrisquei, em uma última tentativa.

– Não se esqueça de que, na outra versão, Scheherazade seria a sultana e Shahryar, seu jovem escravo. Nesse caso, um interesse que perdurasse trinta anos seria plausível.

Mais uma vez, tive de concordar: era inútil debater com aquele homem. Notei que a chuva cessara. Decidi pagar minhas aquisições e retomar meu passeio.

– Foi um prazer conversar com o senhor, mas preciso ir. Vou levar o livro autografado e as cartas de Borges.

– E o manuscrito de Córdova? Sem dúvida, é o mais interessante de todos.

Duvidava da autenticidade de tudo aquilo, mas, ao mesmo tempo, estava cansado de debater com aquele senhor. Resolvi, mais uma vez, regatear:

– Se eu levar tudo, por quanto faria? – esperava uma desculpa para levar somente o livro e as cartas.

– Tenho um esboço de Borges para o Laberinto de Espejos, jamais publicado. Vem acompanhado de seu plano de trabalho e...

Senti-me enredado. Aquilo se desdobrava perigosamente e tendia a não ter fim. Sabe-se lá o que o homem reservava atrás daquela portinhola (admito, estava curioso). De repente, vi-me sob o risco de comprar a livraria inteira e assumir o lugar do velho. Declinei e decidi rapidamente pagar o valor solicitado.

– Tudo bem, eu levo o manuscrito.

Paguei o (alto) valor combinado e recolhi meu pacote com os documentos. Já ia saindo, quando senti o impulso de perguntar:

– A propósito, qual o seu nome?

– Jorge – disse o velho. Logo me tranquilizou, sorrindo: – Outro.

Deixei o alfarrábio com minhas prováveis falsificações. O ar fresco das ruas, lavadas pela chuva, me trouxe alívio. No caminho, misturei-me aos turistas e perguntei-me se alguém sonharia comigo em Buenos Aires.

Conto do livro O Tempo Depois (Editora Patuá, 2026). Leia também no meu Substack.

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