Os Ovos
Quando um leve odor de gás tomou o corredor, os vizinhos não imaginavam que a tragédia já se consumara havia dois dias. As circunstâncias em que o casal de idosos foi encontrado na cama — ele com o controle remoto nas mãos, ela com um livro de colorir — descartaram a hipótese de suicídio.
A filha avisou o irmão, que precisou retornar às pressas de uma viagem de trabalho. Quando se encontraram, ela já havia providenciado um jazigo.
— Não podemos enterrá-los — disse o irmão. — Mamãe me confessou que não queria, em hipótese alguma, ser enterrada. Queria ser cremada.
A mãe fizera esse pedido por aversão à ideia de confinamento e escuridão. Como o pai não deixara instruções, decidiu-se pela cremação de ambos.
Na funerária, para surpresa deles, a atendente informou que os fornos estavam em desuso e que agora havia alternativas mais modernas.
— O que mais tem saído é a “cremação à água”. O corpo é submerso em uma solução que decompõe as partes moles e reduz os ossos a um pó branco e fino. A hidrólise alcalina não emite carbono nem consome energia. Tudo muito limpo e ecológico. Os parentes ficam muito satisfeitos!
— Mas e o método tradicional, não tem mais mesmo? — perguntou a filha.
— Cada fornada traz resíduos das anteriores. As urnas acabam sendo mais uma assembleia de acionistas do que um local de descanso eterno. Quase um condomínio. Além disso, remete a campo de concentração, essas coisas... Ninguém mais quer.
— Entendi... E há algum outro método?
— Sim. “Combustão nuclear”. O corpo é submetido a temperaturas semelhantes às da coroa solar e é totalmente vaporizado. Mas consome quantidades astronômicas de energia e, por isso, é bem cara. É a opção preferida de milionários e celebridades. Eles não viram pó, viram éter.
— Bem, não é o nosso caso. Vamos pela cremação à água mesmo.
— Perfeito. O processo leva apenas algumas horas.
Os irmãos saíram para almoçar. Tudo lhes pareceu muito prático e racional. Horas depois, receberam a mensagem informando que o procedimento havia sido concluído.
De volta à funerária, a atendente perguntou se já haviam escolhido as urnas. Diante da negativa, apresentou-lhes um QR Code. Abriram o catálogo no celular e escolheram uma qualquer.
— Excelente escolha. Serão impressas em alguns minutos.
Pouco depois, a moça voltou com uma caixa. Desfez o laço e retirou dois receptáculos cristalinos, semelhantes a ovos de Páscoa, contendo as alvas partículas que até ontem haviam sido os finados.
Mais tarde, os irmãos discutiram o que fazer. Nenhum dos dois queria guardar aquilo. Pensaram em despejar o conteúdo no mar. Pensaram em uma árvore centenária do parque municipal, mas alguém poderia protestar.
Cavaram, enfim, um buraco no quintal de uma tia.
Enterraram os ovos ali.
Publicado originalmente na revista À Margem.