A primeira palavra

Crônica sobre a origem da palavra e a da poesia. Fruto da releitura de Vidas Secas, de Graciliano Ramos. Na revista À Margem.

Relendo Vidas Secas, de Graciliano Ramos, notei algo que não recordava da primeira leitura, décadas atrás: a relação dos personagens com a palavra. A família mal articula a linguagem; comunica-se por sons, gestos, repetições. Se é clara a forma como o autor dissolve as fronteiras entre ambiente e subjetividade, é a rarefação da palavra que empurra aqueles personagens para uma zona de animalidade — a ponto de Baleia, a cadela, tornar-se a figura mais humana do livro.

Há ali, condensada, uma intuição radical: sem a palavra, o mundo não chega a ser pensado; apenas suportado. É a partir dessa fratura que se pode imaginar o que esteve em jogo quando o homem pronunciou sua primeira palavra.

O impulso do menino me fez pensar na primeira palavra humana um dia pronunciada. Não foi apenas um som: foi uma ruptura. Antes dela, o mundo era vivido; depois, passou a ser dito. Não sabemos quando foi pronunciada nem o que a arrancou do silêncio, mas sabemos que, a partir desse instante, algo se perdeu e algo se ganhou para sempre. Hoje já não conseguimos imaginar o assombro que acompanhou as primeiras palavras, nem as experiências que levaram o homem a distinguir seus grunhidos da língua. Nomear foi um gesto mágico. Não por acaso, os antigos confundiam o nome com a coisa, e muitas culturas reservaram a pessoas e objetos, além do nome comum, um nome secreto, impronunciável. A linguagem da natureza é muda, fluida, viva como um rio; ao homem coube interromper esse fluxo, capturá-lo na palavra, dar-lhe voz e, com isso, impor-lhe uma dignidade inaudita.

Daí o poder atribuído à palavra — Nietzsche afirmou que o homem deu nome às coisas para ter poder sobre elas — e daí também o fato de a linguagem ter sido tomada, desde cedo, como um marco civilizatório, sinal do surgimento da razão, da imaginação e da sensibilidade.

A ideia de que o homem é o guardião da linguagem e de que todas as coisas falam por seu intermédio atravessa os tempos. Na própria Bíblia, a criação se confunde com o ato de nomear. No Gênesis, cada etapa do mundo surge a partir de um fiat e se completa com uma denominação. Mas o homem é uma exceção reveladora: Deus não o cria pela palavra, e sim pelo gesto. Molda-o do barro e sopra-lhe nas narinas o hálito da vida. Só depois reúne os seres e os apresenta ao homem, para ver como ele os chamaria — e o texto afirma que esse passou a ser o nome de cada um.

Lida assim, a narrativa da criação torna-se metáfora do impulso poético humano. O primeiro ato linguístico foi, antes de tudo, poiético e poético. Basta imaginar o instante irrecuperável em que alguém, diante da vastidão do oceano, pronunciou pela primeira vez a palavra “mar”, condensando num som breve toda a sua imponência. Talvez por isso, para os gregos, a poesia tenha sido considerada um atributo divino.

Pode-se objetar que a linguagem humana não é a única linguagem. Ainda assim, todas as outras só se tornam inteligíveis por seu intermédio. Elas só adquirem sentido na linguagem dos homens, seja como pensamento, seja como poesia. Também é verdade que nem toda comunicação é poética. O grosso da comunicação cotidiana, sobretudo numa cultura de massa, busca uma objetividade árida. A máxima de McLuhan — o meio é a mensagem — torna-se quase literal: o conteúdo se molda ao suporte. A linguagem diária, à maneira da publicidade, compõe-se de frases prontas e de um vocabulário reduzido, perfeitamente adaptado aos veículos que o transmitem e aos ouvidos que o recebem.

Ainda assim, se a linguagem nasceu de um impulso poético, esse impulso não desapareceu. A poesia sempre ocupou, dentro da língua, o lugar do pathos. Ela resiste à cristalização, porque o mundo nomeado não cessa de mudar. A linguagem é plástica; por trás da rigidez aparente das palavras corre o rio de Heráclito. Nada pode ser plenamente expresso, assim como nenhum livro pode ser lido duas vezes. Sempre resta algo fora do alcance; é isso que os poetas perseguem.

A construção da linguagem, nome após nome, coincide com a construção da subjetividade humana. O espírito não antecede a palavra: ele se forma nela. Nesse processo, é a poesia que o empurra para além do conhecido. Se um dia a palavra nos apartou da natureza, é a poesia que nos lança de volta a ela, libertando-a — e libertando-nos — do mutismo. Enquanto força da linguagem, a poesia não é política por essência; é incompatível com a estagnação. Talvez por isso a paixão pela poesia seja, no fundo, uma forma específica de paixão pela liberdade.

Talvez aos homens do futuro nosso tempo pareça estranho: saturado de palavras, de livros, de informações. Em épocas de florescimento, a poesia serve de corolário, traduzindo em forma e linguagem o ápice de uma civilização; em tempos de desgaste e incompreensão, torna-se denúncia. Em ambos os casos, ela insiste onde a língua falha, lembrando que o mundo ainda não foi inteiramente dito — e que, como naquele menino de Graciliano, ainda estamos sempre às voltas com a tarefa elementar e difícil de aprender, palavra por palavra, a dizer o mundo.

Publicado originalmente na revista À Margem.

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