A Trupe do Pai

Sei que muitos me consideram desprezível, e eu mesmo sou o primeiro a concordar. Confesso que sinto orgulho e me envaideço de minha posição e influência, embora, nas atuais circunstâncias, ambas tenham perdido muito do seu antigo anelo. Prefiro que me temam.

Eu já ouvira falar, à boca pequena, do grotesco espetáculo que o Pai, em ocasiões especialíssimas, oferecia a seletos convidados. Mas assim como muitos, sempre considerei tais rumores meras fantasias, frutos da imaginativa atividade que somente o ócio e as intrigas palacianas conseguem conceber. Tais boatos mais me divertiam do que realmente captavam minha atenção — e logo os esquecia.

Ninguém ignorava a severidade do Pai — muitos, de fato, desapareceram. Mas afinal, o que é a História senão uma sucessão de infâmias perpetradas em nome do poder? E o que é o poder senão a expressão inabalável da própria História? Era isso que aprendíamos nos manuais. Somos autômatos num cortejo circular cuja marcha não nos cabe julgar, mas sim perpetuar.

Eis a minha história: fazia um ano que me tornara ministro de um ministério qualquer. Meu talento sempre foi mais a lealdade e a persistência do que a cultura ou a indústria. Foram mais de vinte anos prestados à causa. Após o terceiro ou quarto ano, já não acreditava nela. Mesmo assim, na falta de melhores opções, prossegui. Percebi que os ideais não passavam de pretexto. Abandonei os livros — que mal compreendia — e forjei-me à base de slogans e clichês.

Na minha juventude, o Pai já despontava como libertador. Naquele tempo, ainda o chamávamos pelo nome. Foram anos de luta contra a impostura e a corrupção. Anos de combate contra os que produziam sem jamais dividir. Anos de guerra aberta contra os que prometiam paraísos imaginários. Anos de luta contra o real, pelo real.

Anos de resiliência e resignação. Vinho barato, comida de rua, automóveis velhos, mulheres que desprezávamos. Feias. Mas em toda a feiura que nos cercava, incubava-se o gérmen do porvir — diziam-nos que ali residia a verdadeira beleza. E assim, sob um outro véu, o que era feio se tornava belo, e o que era belo exibia sua decrepitude, que somente nós reconhecíamos. Anos de aprendizado, em que a perfídia e a mentira dos opressores se fizeram nossas armas. Beleza. Verdade. Justiça.

O Pai finalmente foi alçado ao poder em plena conformidade com as leis e instituições vigentes. “Uma festa da democracia”, diziam os jornais da época. No início, nossa inépcia foi mascarada pelos bons ventos da economia: houve prosperidade, o povo esbanjava, os ricos não podiam reclamar. Nessa época, tornei-me um funcionário de terceiro escalão. Já era um alguém. Um servidor.

Quando a maré virou e o povo tomou as ruas, despontaram vozes dissonantes no Partido, na imprensa, entre os apoiadores. A oposição reergueu-se com latidos estridentes. Era a crise que se instalava. O Pai, de pronto, fez-se conciliador: acolheu adversários, distribuiu recursos, concedeu benesses. Julgaram-no fraco; os hesitantes mostraram a cara e os audaciosos exigiram o impossível. Então, agiu com mão de ferro: eliminou os inimigos reais; depois, os imaginários; e, por fim, qualquer um que ousasse discordar.

Almejei mais. Ao fim da primeira purga, subi ao segundo escalão por falta de quadros. A repressão recrudesceu com as manifestações que não cessavam; as intrigas alastravam-se pelas repartições. Foi quando, à sombra de uma traição por mim urdida, tornei-me ministro. Não lamentei o destino de meu predecessor. Vontade de poder.

O ministério que herdei não gozava de prestígio. Fazia-se troça de minha pasta; poucos a cobiçavam. Transformei-o em meu feudo. Foi por esses idos que me aproximei do Pai. Até então, nossos encontros foram poucos e protocolares. Não saberia dizer se ele se lembrava de mim. Porém, nos meses de fúria e incerteza que se seguiram, o álcool, as orgias e o pó corriam soltos, e o Pai apreciava minha companhia naquelas noites de pândega.

Com a proximidade, a intimidade. O Pai passou a dividir comigo suas inquietações. Confidenciava-me. O medo que nele pude pressentir, sua flacidez e seu hálito indecoroso atiçaram meu asco. Parecia frágil. Após as farras, era comum adoecer. Passei a desprezá-lo.

Com uma mistura de sangue índio e alemão, eu era alto e de tez acobreada; traços angulosos e olhos baios. Aos quarenta e poucos, era belo, mais do que em minha juventude miserável. Os anos de tirocínio na arte da manipulação me investiram do raro charme dos psicopatas. Não tinha esposa, nem filhos. O mundo era minha família. Não era assim que diziam os Upanishads?

Foi então que flertei com suas amantes. Entre as consortes, a favorita era uma russa chamada Irina — loura, alta e esguia. Doutorara-se em Moscou com uma tese sobre a influência dos jesuítas na formação do Brasil. Dizia que, não fosse por Pombal, o país já seria uma potência há séculos. Era cômico vê-la ao seu lado. Repugnava-me imaginá-lo sobre seu corpo; não compreendia como ela se prestava a recebê-lo em si. Certa vez, numa das intermináveis algazarras, ele ma ofereceu. Ela riu alto.

Os sinais apontavam para um fim iminente. Não queria estar à margem. Certa feita, ouvi de companheiros de primeiro escalão piadas maliciosas sobre o Pai. Depois, sussurros sobre a sucessão. Conspiravam à surdina. Ainda assim, os olhinhos leitosos e apertados do velho sugeriam uma estranha lucidez.

Por esses tempos, passei a ver com mais frequência o chefe da inteligência, Florian. Florian tinha livre trânsito pela cúpula; sem que eu percebesse, tornamo-nos próximos. Foi por ele que soube das últimas insanidades do Pai: reformas megalômanas no palácio, aquisições de arte, troca da aeronave presidencial. Contou‑me pormenores do fausto que o cercava — um último suspiro de insensatez em meio ao caos. Notei, ou quis notar, um tom de desprezo nas suas observações.

Então, os eventos se precipitaram. O Pai incumbiu-me de uma viagem diplomática urgente e, às pressas, nomeou-me Secretário de Estado. Deu-me instruções específicas, as quais ignorei. Minhas decisões foram bem recebidas pelos nossos parceiros e amplamente saudadas. Ao retornar, senti-me à vontade para dar declarações à imprensa sem consultar ninguém.

Naquele final de semana, a residência oficial seria reaberta com uma festa exclusiva para o círculo íntimo. O putsch estava armado. Segundo Florian, a senha seria um misterioso cortejo. Não forneceu mais detalhes.

Chega o dia. Ao entardecer, o céu do planalto, tisnado pelas queimadas distantes, tremulava num dourado febril. Era seca no cerrado, mas os jardins do palácio verdejavam. As luzes projetadas nos pilotis faziam-no pairar sobre o espelho d’água. Quando a noite fresca caiu, muitos dos convidados já estavam presentes, ocupando seus lugares. Irina circulava ágil, distribuindo sorrisos e palavras espirituosas em várias línguas. Um vestido prateado, cavado nas costas, expunha majestosamente suas covas de Vênus. Fitou-me e sorriu. Jurei que seria minha.

O Pai estava à cabeceira da mesa principal, cercado por embaixadores de nações amigas e lacaios. Eu me sentava a uma mesa próxima, com alguns ministros. Florian juntou-se a nós, distribuindo pílulas. “Divirtam-se, senhores”, disse, sorrindo. Estávamos alegres, bebíamos. Alguém relembrou uma anedota envolvendo um ministro bajulador que estava a poucos passos de nós. Compararam-no a um bobo da corte. Florian então passou a discorrer sobre os bobos da corte nas monarquias europeias. Contou que alguns exerciam grande influência sobre o rei, como Sommers e Triboulet, que serviram a Henrique VIII e Luís XII, respectivamente.

De súbito, a música cessou e ouviram-se os estalos de rolhas de champanhe. Todos brindaram ao Pai. Em um breve discurso, ele citou as conquistas recentes no país, a recuperação da economia, a paz mundial. “Ao futuro!”, concluiu, sob aplausos veementes. A um gesto seu, a orquestra iniciou o primeiro ato de Rigoletto, de Verdi. As luzes que até então iluminavam todo o jardim se apagaram, e as cortinas de um palco improvisado sobre extenso gramado se abriram.

Entraram em cena os cantores, entoando os primeiros versos da ópera, seguidos por anões e outros tipos caricatos. À primeira vista, pareciam atores comuns, fantasiados como personagens da Renascença. Foi então que tudo sucedeu: ao olhar com mais atenção, pude reconhecer naquele cortejo algumas figuras. Lá estavam o Freitas, antigo braço direito do Pai e companheiro de lutas; o Pagani, ex-ministro da economia, cofundador do partido; Rodrigues, ex-diretor da polícia; Bauer, general de exército; Irwin, jornalista; Virgínia, da Suprema Corte; e os oligarcas Santoro e Borghese. Pensei que houvessem sido eliminados. Agora ressurgiam misturados entre os cantores e atores. O burlesco da ópera disfarçava o grotesco da cena que se desdobrava. Notei que todos eram anões deformados e bestiais.

Um calafrio percorreu-me os ossos: temi que o assombro me entregasse. Recompus-me. Senti duas mãos pousarem em meus ombros. A voz de Florian sussurrou-me ao ouvido:

— Vê os traidores? Todos passaram por cirurgias estéticas. Tiveram os ossos dos braços e pernas serrados e reunidos para se tornarem anões. Está vendo o Freitas? Foi o primeiro. Já passou por mais de vinte cirurgias. Quando o Pai se cansa do visual dele, manda alterar alguma coisa. E aquele sorriso imutável da Virgínia? O Pai a estava achando amarga e ingrata e ordenou que lhe colocassem um sorriso eterno na cara. E o Irwin? Ah, o Irwin. O Pai nunca tolerou sua petulância. Quis transformá-lo num inseto. Por isso tem braços e pernas a mais. Eram do Borghese. Olha ele ali: não tem braços, nem pernas. Não fosse a cabeça enorme e as rugas, pareceria um bebê. Se observá-los de perto, verá que cada um possui detalhes únicos, surpreendentes... São verdadeiras obras de arte, esculturas vivas.

Não pude suportar a náusea. Fiz menção de sair, mas cambaleei. Fui tomado pela vertigem. In vino, veritas; in vino, memoria moritur. Foram as últimas palavras que ouvi da boca de Florian. Caí inconsciente e só fui despertar dias depois. Então, já era outro.

A traição, o opróbrio, o destino: quem negará a justeza de uma história tantas vezes repetida? Mas o Pai foi-me clemente. Por isso o chamam de Pai. O grande Pai. Os outros não tiveram a mesma sorte. Pouparei o leitor dos detalhes sórdidos da minha aparência. Recebi um chicote e a liderança daquela pequena farândola.

Continuo-lhe próximo. Bebemos juntos. Sou seu conselheiro.

Publicado originalmente na revista À Margem.

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